“Quando Álvaro Cobra a despiu com os seus dedos grossos e
desajeitados e a pôde, finalmente, ver nua sobre a cama, pensou que se
tratava de um milagre, num tempo em que já não havia milagres sobre a
Terra, por se ter esgotado a capacidade inventiva dos santos ou a
benevolência pedregosa dos homens. Todavia, do mal dos divinizados não
padecia o lavrador Álvaro Cobra, que possuía uma imaginação sem
arreios…”
Carlos Campaniço oferece-nos uma galeria de personagens
inesquecíveis, que vão de um anarquista à dona de um bordel ambulante, e
recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e
os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal.
Tendo como editora,
Maria do Rosário Pedreira, a obra de Carlos Campaniço foi editada em Abril de 2013 pela
Teorema, chancela do Grupo Leya. O mesmo título foi destacado com o Prémio Literário Cidade de Almada 2012
É nessa
imaginação sem arreios que Carlos Campaniço traz até
ao leitor um livro que é puro deleite. Este «Os demónios de Álvaro
Cobra» é uma preciosidade tal qual o seu Alentejo, na aldeia de Medinas,
e que lhe serve de pano de fundo para todas as maleitas dos Cobra, uma
família cheia de eventos e raridades que tocam o bizarro.
O retrato rural, mágico e até surreal do nosso Alentejo é muito bem
recheado com personagens assombrosas e dignas de “se lhe tirarem o
chapéu”. Se o próprio Álvaro Cobra é uma achado, a avó centenária não
lhe fica atrás ou a irmã brasa, mesmo meio morta, não deixa de dar mais
vivacidade à história.
Se as maleitas e enguiços associados à tenacidade ímpar dos Cobra é
por si só dúbia, junte-se ainda, cristãos (precocemente convertidos),
árabes e judeus, tudo em ampla convivência, num Alentejo que se
reinventa por entre cultos pagãos para uma nova fé monoteísta!?
Para além de religião e culto, encontramos também lendas e mitos
associados não só às tradições populares alentejanas, como também do
cunho cultural e geográfico herdado da ocupação árabe. O próprio autor
afirma a necessidade de se escrever sobre o que se sabe, passando assim
ao leitor uma maior credibilidade e conferindo um papel mais forte e
real a toda a história.
Apesar de toda a magia que envolve e caracteriza o desfile de
personagens deste romance, reconhecem-se nos traços pessoais de muitos
deles, muitos de nós, actuais ou antepassados, demonstrando uma óptima
análise do ser-se português nas palavras rebuscadas e sonhadoras do
autor.
Carlos Campaniço brinda às gentes da aldeia e presta-lhes uma
homenagem. É nesta passagem de testemunho que se imortaliza a tradição
oral das
estórias das gentes, das bichanisses que se cochicham
e
das histórias orelhudas, que de tanto serem contadas passam a ser
verdadeira. Apesar de negra, a história é rica em graciosidade. É a
linguagem, é a forma como o autor enlaça os acontecimentos e as
personagens, conferindo, mesmo aos regionalismos mais brutos uma certa
magia que os tornam belos.
É quase impossível destacar partes deste livro, pois são inúmeras e
tenho o livro todo etiquetado, mas existem frases que são verdadeiras
tiradas de mestre e nos transportam para uma outra dimensão de pensar a
realidade. A ideia da solidão da morte e de o morto (o pai Cobra) não
conseguir conviver com essa mesma solidão. Ou o recuo do exército de
sapos, não pelos desígnios de deus, mas pelas mezinhas de nómada de
Clarinha. Talvez a piada com o nome do padre Jesuíno (
Je, do pai e
suíno da
mãe) ou outras tantas, sejam ainda mais do que o são, se lermos as
entrelinhas… a religião pensada com o pragmatismo das gentes simples e
que procuram a paz na opinião alheia… a importância de Miss Margot e os
pares de pernas de deusas que vêm aliviar as noites… neste livro até o
sexo tem cheiro a terra e os dissabores brutos das intempéries.
A própria ligação dos personagens à terra ou a comunicação paranormal
com os animais, vista como bruxaria em algumas vezes, mas solução
divina, quando assim é preciso. A divagação sobre o credo e tendências
de culto tida nas páginas 94 e 95 é simplesmente deliciosa e por certo
um pouco de todos nós se revê nalguma daquelas imagem – afinal de contas
quem é não vai à apanha da espiga e põe o raminho atrás da porta!?

Em suma, os demónios que apoquentam Álvaro Cobra podem ser os que
atormentam qualquer homem, nem santo nem bruxo, esta é uma história dos
homens, onde a fé, a dor, o amor, a solidão, a morte, a tristeza e a
alegria convivem todos os dias, tornando-nos parte da terra, parte do pó
dos dias!
Este livro chamou-me pela primeira vez à atenção pelo título, depois o
amigo e conselheiro de leituras Jorge Navarro leu e recomendou e logo
de seguida, também Mário Rufino, leu e destacou e como tal, não me
poderia passar ao lado. Mais tarde apanho também a
entrevista que aconteceu antes do lançamento e na qual gostei bastante de ouvir o autor.
Neste Verão chegou a oportunidade de o ler e fico muito feliz de só
agora me despedir dele, revisitando-o e escrevendo sobre ele, pois foi
mais uma oportunidade de saborear algumas das passagens que fui
destacando.
Para quem ainda não leu, leia! Boas Leituras.